As Programadoras do ENIAC: as seis mulheres que inventaram a programação sem manual nenhum

Em 1945, seis mulheres foram encarregadas de fazer o ENIAC funcionar. Não havia linguagem de programação, não havia manual e não havia ninguém para perguntar como se fazia aquilo — porque ninguém, em lugar nenhum do mundo, tinha feito antes. Elas não só resolveram o problema como criaram, na prática, os primeiros métodos de depuração e organização lógica de um programa. E durante quase 40 anos, quase ninguém soube os nomes delas.

Para quem quer seguir explorando o tema, Konrad Zuse e o Z3 é outra boa parada por aqui.

Quem eram as “computers” que viraram programadoras

Kathleen McNulty, Jean Jennings, Frances “Betty” Snyder, Marlyn Wescoff, Frances Bilas e Ruth Lichterman trabalhavam originalmente como “computers” humanas na Universidade da Pensilvânia: calculavam à mão, com réguas de cálculo e máquinas de somar, tabelas de trajetória balística para o Exército dos EUA. Quando o ENIAC — o primeiro computador eletrônico digital de propósito geral do mundo — ficou pronto em 1945, o projeto precisava de alguém para programá-lo. As seis foram escolhidas entre um grupo maior de calculistas para assumir essa tarefa.

Close-up de válvulas eletrônicas em um circuito antigo, similar às usadas no ENIAC
  • Kathleen “Kay” McNulty — depois trabalhou no EDVAC e no BINAC.
  • Jean Jennings (depois Jean Bartik) — tornou-se uma das principais vozes da equipe original ao longo da vida.
  • Frances “Betty” Snyder (depois Betty Holberton) — mais tarde ajudou a projetar o conjunto de instruções do BINAC e trabalhou no desenvolvimento do UNIVAC.
  • Marlyn Wescoff, Frances Bilas e Ruth Lichterman completavam o grupo.

Programar batendo cabeça com fios e chaves

O ENIAC não tinha teclado, tela ou sistema operacional. “Programar” significava literalmente reconectar cabos em um painel de conexões (parecido com uma antiga mesa telefônica) e ajustar milhares de chaves manuais, reconfigurando fisicamente os circuitos da máquina para cada novo cálculo. Uma mudança de programa podia levar dias de trabalho braçal antes de rodar um único teste.

Cabos e conexões manuais lembrando os painéis de programação do ENIAC

As seis programadoras não receberam treinamento formal em lógica de máquina: aprenderam estudando os diagramas de engenharia do ENIAC, entrando literalmente dentro da máquina (ela ocupava uma sala inteira) para entender como os sinais elétricos se propagavam entre os painéis. Elas desenvolveram, na prática, a primeira noção de depuração: rastrear um erro percorrendo fisicamente os circuitos até achar o tubo a válvula queimado ou o cabo mal conectado.

Curiosidade pouco conhecida: a foto que apagou seus nomes

Na apresentação pública do ENIAC em fevereiro de 1946, um marco histórico da computação, as programadoras não foram apresentadas nem citadas nos releases oficiais. Fotos famosas da máquina, usadas por décadas em livros e arquivos, mostravam essas mulheres ao lado do ENIAC identificadas apenas como modelos decorativos — e não como as pessoas que haviam escrito o programa em exibição. Foi só nos anos 1980, com a pesquisa da historiadora Kathy Kleiman (que criou o projeto ENIAC Programmers), que a história das seis foi reconstruída e elas passaram a ser reconhecidas como as primeiras programadoras profissionais da história. Em 1997, o grupo entrou para o Women in Technology International Hall of Fame.

Por que isso importa hoje

A história do ENIAC costuma ser contada como uma história de hardware — válvulas, velocidade de cálculo, tamanho da sala. Mas o software começou com essas seis mulheres resolvendo, sem precedente nenhum, problemas que hoje têm nome: fluxo de controle, alocação de memória, depuração. Betty Holberton seguiu carreira e ajudou a moldar convenções de programação usadas até hoje, como o uso de breakpoints. Entender essa origem muda o jeito de olhar para a diversidade na computação atual: mulheres não chegaram depois à programação — estiveram literalmente na criação dela, antes mesmo de existir a palavra “programador” como profissão.

Placa de circuito eletrônico antiga

Da próxima vez que alguém repetir a ideia de que programação “sempre foi coisa de homem”, vale lembrar do painel de cabos do ENIAC e das seis mulheres que aprenderam, sozinhas, a fazer aquele emaranhado de fios pensar.

1 comentário em “As Programadoras do ENIAC: as seis mulheres que inventaram a programação sem manual nenhum”

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